segunda-feira, dezembro 31, 2012

É TUDO VERDADE 
2012 não foi um bom ano p/ a música. Grandes perdas  Adam Yauch, o MCA dos Beastie Boys, Jon Lord do Deep Purple, e Dave Brubeck, ícone do jazz, foram as baixas mais sentidas no playlist do Viva La Brasa  e os maiore$ ganho$ indo pro tipo de som mais descartável desde a invenção do axé. O paranaense Michel Teló liderou duas paradas latinas e chegou ao Hot 100 da Billboard c/ "Ai Se Eu Te Pego" e o goiano Gustavo Limma alcançou o nº 1 na Bélgica, França, Itália, Holanda e Suíça c/ seu "Tchê Tchererê Tchê Tchê"… 'Sertanejo universitário' é o ritmo que comprova o baixo nível do nosso ensino e ajuda a explicar a crise nos EUA e Europa.

Mas nem tudo foi perdido no ano que passou. Em 13 de dezembro comemorou-se o centenário do 'Rei do Baião' Luiz Gonzaga, o cara que imprimiu no consciente coletivo a imagem do sertanejo: gibão e chapéu de couro. Retirante radicado no Rio de Janeiro, adotou o visual do cangaço e virou sinônimo de sanfona no Brasil. Autor de incontáveis 'hits'  a minha favorita é "A Sorte É Cega"  sua influência é total em Sergipe, estado cantado como o "País do Forró". Desde a incontável quantidade de tocadores em trios pé-de-serra até as bandas mais modernas que usam música eletrônica, como Naurêa e Coutto Orchestra de Cabeça, que têm sanfoneiros em suas formações.

O que pouca gente sabe é que uma vez Gonzagão apeou em carne-e-osso, "Asa Branca" e "Assum Preto", aqui em Aracaju. Tocou no rádio, brigou com o dono e arrastou uma ruma de gente pruma 'jam' no meio da rua. História bem melhor que a do filme lançado há pouco tempo, e quem conta é Ivan Valença, ele próprio uma lenda do jornalismo sergipano. A crônica foi publicada no Jornal da Cidade, e eu só sei que foi assim:  

"Quando foi que tudo isso aconteceu, isso eu não me lembro mais. Só posso me lembrar dos fatos e alguns nomes dos personagens. E garantir-lhes que tudo o que vai ser narrado pode ter seu gostinho 'kitsch', mas tudo é verdade, como já dizia o título de um antigo filme de Orson Welles.

O causo se passou na antiga Rádio Difusora, quando a emissora ocupava um andar do Palácio Serigy, ali em frente a Praça General Valadão, mas com entrada pela Rua José do Prado Franco, já então conhecida como a rua do Mercado, embora os mercados municipais ficassem pelo menos um trecho adiante. A rádio tinha estúdios acanhados, mas fez história porque foi a primeira emissora de rádio na capital sergipana. A PRJ-6 abrigou em seus estúdios tanta gente que fez história no rádio sergipano, de Alfredo Gomes aos irmãos Silva, Claudio e Wolney, além de Paulo Silva, que preferia usar sua voz no carro de propaganda Guarani, de propriedade de Augusto Luz, o dono do Cinema Guarany. Depois, Paulo virou-se para o empreendedorismo e manteve por muitos e muitos anos o Café Sul Americano, que rivalizava com o Café Império na preferência dos sergipanos.

Um dos seus irmãos, Claudio, foi ser locutor na Voz da América, que era transmitido dos Estados Unidos para o Brasil. O outro, Wolney, permaneceu no Rio de Janeiro, não sei bem se na Rádio Nacional ou na Rádio Mayrink Veiga. Falava inglês fluentemente, mas preferiu ficar no Brasil. Foi, por um certo período, o apresentador do programa oficial A Voz do Brasil. O certo é que foi lá que Wolney conheceu Luiz Gonzaga e fez muitos programas radiofônicos com ele. Tanto que o indicou ao irmão Paulo: 'quando ele aparecer pelo Sergipe, faça o patrocínio dele que você vai se dar bem'.

O café Sul Americano era o patrocinador de um programa na Rádio Difusora que começava às 8h da manhã e durava uma hora. Era um programa de música popular, nada desses indigestos programas falatórios de hoje, onde se debate tudo e não se aproveita nada. Luiz Gonzaga vem então fazer uma temporada em Sergipe e Paulo o convida a ir ao seu programa.


Gonzaga vai. Só ele e sua sanfona. Com as portas do auditório da rádio abertas para quem quisesse ir conferir pessoalmente a apresentação. Não é preciso dizer que, se o auditório já era pequeno, ficou menor ainda com aquela multidão extasiada que via Gonzaga puxar o fole e extravasar seu vozeirão em baiões memoráveis.

Deu nove horas e nada do programa acabar. 9h10, 9h15… nada. O programa ainda estava no ar. O diretor da rádio - quem seria?, minha memória fica em dúvidas se Santos Santana ou o durão Sodré Jr., Ribeirinho para os íntimos - manda então desligar o som do auditório e dar o programa por encerrado de qualquer jeito.

Ao saber que sua voz já não estava mais no ar para todo Sergipe, Luiz Gonzaga ficou furioso. Passou, ao vivo e a cores, uma reprimenda no diretor da rádio e convidou a multidão a acompanhá-lo até a rua. A multidão abriu passagem no auditório e o seguiu escada abaixo. Lá embaixo, ele esperou que todos descessem, puxou o fole e tascou mais uma de suas inebriantes melodias.

Veio, então, pela Rua João Pessoa, com a sanfona perpassada no corpo e cantando. A multidão o acompanhava, contristada, mas alegre. O show só parou na esquina da João Pessoa com Laranjeiras. Ele então dispensou a todos e foi embora…

Aquelas imagens nunca saíram, evidentemente, de minha mente. Nunca vi nenhum cantor, ator ou atriz se dispor a marchar frente a uma multidão e controlá-la de todo jeito. Procópio Ferreira, um comediante pelo qual o povo tinha verdadeira admiração, morria de um medo danado de multidão. Tanto que só entrava no Cine Teatro Rio Branco pela porta dos fundos e só ia embora quando, encerrado o espetáculo,  o último espectador desaparecesse pela Rua João Pessoa. Paulo Autran, findo qualquer espetáculo no Rio Branco, ia sempre tomar um cafezinho ou uma água gelada na Chic, ali na João Pessoa e Laranjeiras. Mas o povão tinha medo de se aproximar dele, que era muito solene…

***

Tudo isso me vem à mente por conta da passagem do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, exatamente a 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, padroeira dos olhos. Luiz Gonzaga foi o segundo dos oito filhos do sanfoneiro Januário dos Santos e de Ana Batista de Jesus, a Santana.

Nasceu na pequena Exu, ao pé da Serra do Araripe, no semi-árido Pernambuco. Exu vem a ser uma variante de Axu, corruptela de Açu, tribo indígena da região. Lugar barbo, feudo de duas famílias sempre em guerra de poder, os Alencar e os Saraiva.

Gonzaga era gente dos Alencar, sua família servia no chão de suserania daquele povo caririense que tem entre suas glórias o romancista José de Alencar, a revolucionária barba do Crato, e o político Miguel Arraes. Interessante é que só depois de adulto e já personalidade nacional é que Gonzaga veio a saber do seu próprio parentesco sangüíneo. O talento do moleque da Gameleira o fez, porém, maior do que os Alencar e os Saraiva. A fama de Luiz Gonzaga correu o mundo e anos mais tarde ele tentou utilizar o prestígio pessoal para apaziguar os clãs rivais.

Aquele que viria a ser coroado como o 'Rei do Baião' na época de ouro do rádio morreu em 2 de agosto de 1989, no Recife, aos 77 anos. seu Luiz, como os amigos e admiradores gostavam de chamá-lo, construiu uma saga e uma carreira que o singularizaram como artista excepcional, criador de clássicos como 'Asa Branca', uma de suas inúmeras parcerias com Humberto Teixeira, e a pungente 'Juazeiro'. Gonzaga fixou e difundiu o baião, as vozes, os sotaques e os cantares nordestinos, incorporando o Nordeste no mapa musical do país.

Foram mais de 300 composições, sozinho ou em parcerias com Humberto Teixeira, Zé Dantas, Nestor de Hollanda, o filho Gonzaguinha, Hervie Cordovil, Assis Valente, Guio de Moraes. Eram aboios, xotes, rancheiras, canções juninas, toadas, marchas, polcas, choros, valsas, calangos, maxixes, cocos, mazurcas, emboladas, xaxados e até batucada. Mas tudo era baião porque tudo era Luiz Gonzaga. Todo mundo é herdeiro dele. De Gilberto Gil e Caetano a Alceu valença, Elba Ramalho, Marinês e Sua gente. de Mestre Salu a Geraldo Azevedo, a Chico Science, a banda Cascabulho, Mestre Ambrósio e o garoto Kiko Horta, sanfoneiro carioca do Cordão do Boitatá.

Dos tocadores de fole, triângulo e ganzá das feiras nordestinas que se espalharam pelo Sul, aos berimbaus casados com guitarra que desconstroem o forró para construir de novo. O próprio Luiz Gonzaga disse a si mesmo numa toada inesquecível: 'Minha vida é andar/ por esse país/ pra ver se um dia/ descanso feliz/ guardando as recordações/ das terras onde passei/ andando pelos sertões/ e dos amigos que lá deixei/ mar e terra/ inverno e verão/ mostro o sorriso/ mostro alegria/ mas eu mesmo não!"...

domingo, dezembro 23, 2012

ROCK NA VEIA 







THE BAGGIOS [ACIMA] & RENEGADES OF PUNK: O VENENO & A CURA

Conheci a arte de Thiago Neumann freqüentando o Backstage, um apartamento no centro da cidade transformado em estúdio p/ as bandas de rock de Aracaju no início dos anos 2000. As paredes do lugar eram forradas com desenhos sacanas do Angeli, do Manara, do Moebius e do Cachorrão.

Já falei dele aqui há 2 anos, e se vc acompanha o blog tá ligado(a) que o bicho vai na jugular. Seu traço raivoso estampa capas de EPs e CDs dos Mamutes, Nantes e Plástico Lunar. Foi um dos artistas convidados a expor no lançamento do álbum MÚSICA PRA VER, da dupla de fotógrafos Snapic  e sua interferência sobre os registros das bandas ao vivo foi tão impactante que saiu das galerias p/ o site da Zupi, a revista de arte mais irada do Brasil.

Da Karne Krua aos Baggios, ninguém escapa da seringa que injeta rock'n'roll na veia. Destaque do mês de dezembro, "Thiago Neumann faz intervenções artísticas muito legais em fotos", diz a matéria que também apresenta outros trabalhos do Cachorrão nessa linha  como o tomate-cereja que foge da pizza ou os Renegades of Punk se fundindo à paisagem decadente.

Falando em decadência, o Backstage fechou porque a estrutura do prédio antigo no calçadão da Laranjeiras não tava segurando o tranco. Mesmo c/ todo o isolamento acústico, dava pra ouvir o som antes mesmo de subir até o 2º andar do inferninho. Sempre colavam umas meninas e rolavam umas festas. Se aquelas paredes falassem…

A ARTE DE CACHORRÃO: ROCK'N'ROLL NA JUGULAR 

quarta-feira, novembro 14, 2012

VIDA REAL
LEPTOSPIROSE & RENEGADES OF PUNK: CLANDESTINO #3

"Quando eu deletei a opção de ficar em casa assumindo arvorismos, estrelismos, ismos, idéias, carnavais e abissais, eu não tava mentindo. (Uha!) Desse dia então eu decorei, eu pequei, eu fumei, eu roteirizei alguma sensação"…

Tomar de assalto um local público. Alugar um gerador de energia, reunir uns amigos, chegar sem avisar e ligar os instrumentos. Rock sem edital, sem patrocínio  e sem autorização de governo, prefeitura ou polícia.

Quinta, 08/11, aconteceu mais um CLANDESTINO, iniciativa da nova cena punk de Aracaju. "Juntando forças somamos vontade e equipamento pra fazer uma festa subversiva e divertida que transforma nossa rotina insossa em um pedacinho de vida real", diz o perfil do evento no Facebook. "Não temos líderes ou mestres, estamos juntos tentando viver e nos expressar como queremos e sabemos."

O 1º Clandestino aconteceu em 29 de janeiro, quando meia dúzia de punks invadiu a praça Fausto Cardoso, a.k.a. Praça das Putas. As bandas Robot Wars e Trimorfia deram o chute inicial, transformando um bucólico coreto no centro da cidade numa 'gigem plena tarde de domingo

O 2º foi em fevereiro no laguinho dos patos na orla de Atalaia, c/ a Renegades of Punk abrindo p/ a Mahatma Gangue, de Mossoró [RN]. Rolou de boa novamente, mas se sujasse quem teria que dar explicações na delegacia, ao estilo Rita Lee, seriam os guerrilheiros Dani & Ivo. Além de mentores intelectuais do crime, o casal é autor das ações, encarando o sistema de armas em punho  ele, as baquetas, ela, uma Danelectro verde-glitter.

"A idéia do Clandestino não é 100% nossa. Silvio da Karne Krua contou pra gente que ele e outros envolvidos tocavam na rua de graça com gato de poste, décadas atrás. Sentimos a mesma necessidade que eles sentiram. Sem lugar pra gente fazer o que quer e com vontade de tocar, o jeito foi fazer assim mesmo: na rua, livre."

Dani & os Renegades tocam mais fora do estado do que aqui dentro. Acabam de voltar de uma turnê pelo sul e sudeste, onde fizeram 8 shows em 7 cidades promovendo o álbum de estréia CORAÇÃO METRÔNOMO – lançaram em Aracaju há um mês com ingresso a R$ 10 valendo uma cópia do disco. Punk rock sem fins lucrativos.

"É tanto tempo pra tentar correr atrás do que nunca terei que nem sei pra que lado devo andar", admite na letra de Vida Real: "Mas ainda assim ainda estou aqui, até quando aqui for o lugar pra mim."

Se espaços pra tocar são poucos, o que não ajuda também é a cultura de porta-de-show. "Às vezes vai uma galera apenas pra curtir a night na porta do bar, deixando os produtores no perrengue de ter que cobrir os custos", aponta Adelvan do Programa de Rock, sempre presente nas gigs. "Mais bandas não vêm tocar em Aracaju porque não há público ou não há público porque as bandas não vêm tocar?"

Não sei se isso responde a pergunta, mas a 3ª intervenção clandestina quase virou uma sublevação. A borda dos bowls do Cara-de-Sapo Skate Park ficou pequena pra multidão de punks, roqueiros, curiosos e é claro skatistas que colou na apresentação fora-da-lei dos renegados e seus convidados, o furioso trio Leptospirose.

"Nunca tinha feito isso! Achei fantástico, tipo aquele VHS do Midnight Oil", compara Quique Brown, vocal e guitarra. Em tour pelo nordeste, a banda de Bragança Paulista [SP] tocou de graça em nome da causa. O único momento de tensão foi quando passaram uns 'chips' em blitz, de moto. "Havia uma apreensão geral mas rolou tranqüilo!"

Foi na paz mas não foi suave. Ganhei um furo de brasa na minha camisa da Leptos e a roda de pogo pegou fogo c/ os 'hits' Acordar Idealizar Vomitar e Dormir, My Name Is Luis Henrique Camargo Duarte And Yours?, Eucalipto Sal Geladeira de Isopor Surf e a faixa-título do novo disco, AQUA MAD MAX  que Quique dedicou a mim, uhu!

"Hawaii style/ Over the town/ Trasher waves/ Coming Up/ Only for surfers/ With my iron board/ Crossing cars/ Crossing skulls/ Aqua Mad Max/ Aqua Mad Max/ Aqua Mad Max/ I am"…

As ruas são nossas.


O UNIVERSO PÓS-JOVEM EM CHAMAS ÀS QUINTAS-FEIRAS
RENEGADES FAZENDO AS COISAS ACONTECEREM
CLANDESTINO #1 NA PRAÇA DAS PUTAS
CLANDESTINO #2 NO LAGUINHO DA ORLA
CLANDESTINO #3 NA PISTA DE SKATE
LEPTOSPIROSE NUMA NOITE PUNK
"NÃO É ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO TER
RITMO E MELODIA PARA HAVER MÚSICA"


FOTOS: ARTHUR SOARES E VICTOR BALDE [SNAPIC], RAIANE SOUZA [REVER], NINA OLIVEIRA, DILNER BANKSY, ALESSANDRO SANTANA E ROCKVOLUME.COM
VÍDEO: ETHAM PAESE + LEPTOSPIROSE / DIREÇÃO: PABLO AGUIAR

domingo, agosto 19, 2012

BUCETA TRETA
PUSSY RIOT: EM AÇÃO [ACIMA] E NA PRISÃO [ABAIXO]


2 anos de cadeia. É o tempo que vão pegar Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos, Maria Alvokhina, 24, e Yekaterina Sumtsevich, 30 – as 3 roqueiras presas por protestarem em uma igreja em Moscou.
 
No dia 21 de fevereiro, a catedral do Cristo Salvador foi invadida por garotas mascaradas usando vestidos coloridos, empunhando guitarras, socando o ar e chutando alto, na coreografia da canção ‘Punk Prayer’, cuja letra pede à Virgem Maria que afaste a Rússia das garras de Vladimir Putin, às vésperas de sua reeleição p/ o 3º mandato como presidente.

O protesto, apesar de caótico, foi pacífico – e até engraçado. Mas o que se seguiu foi um processo kafkiano, uma condenação injusta e a comoção mundial em torno de um grupo que existe há menos de 1 ano.

REVOLT IN RUSSIA
Mais do que uma banda de rock, Pussy Riot é um coletivo de mulheres ativistas. “Nosso objetivo é nos afastar das personalidades em direção aos símbolos de protesto puro”, diz Serafima, uma das integrantes em liberdade. Todas usam codinomes, como Tyurya: “Trocamos frequentemente de nomes, balaclavas, vestido e papéis dentro do grupo. Alguém sai, um novo membro se junta e a escalação em cada apresentação pode ser inteiramente diferente.

Criado em setembro de 2011 após o anúncio da candidatura de Putin, o grupo adota tática de guerrilha nos shows: aparece sem avisar e toca sem autorização em locais públicos como a Praça Vermelha. Foi lá, em janeiro, que foram detidas pela 1ª vez, mas por serem réus primárias, as 8 envolvidas na ocasião foram liberadas. No episódio da catedral, elas já eram reincidentes.

A motivação desse protesto foi uma promessa de campanha, 13 dias antes, p/ investimentos na ordem de £120 milhões em construções da Igreja Ortodoxa. “Temos que nos afastar da noção primitiva que separa Estado e Igreja”, disse o candidato referindo-se ao Secularismo e contrariando a constituição russa, segundo a qual não existe religião oficial.

BACK IN THE URSS
Desde que foi eleito, Putin vem enfrentando manifestações públicas e usando a força policial contra a oposição. “Tudo aquilo que fragiliza o país e divide a sociedade é inaceitável para nós. Qualquer decisão ou medida que leve a distúrbios sociais e econômicos é inaceitável”, discursou o ex-agente da KGB que se mantém no poder há quase 15 anos, seja como presidente ou primeiro-ministro.

O Estado russo é visto por críticos como um sistema político em que o Kremlin gerencia muito além do esperado”, analisa Daniel Sandford, correspondente da BBC no Brasil: “A linha entre o Estado e a Igreja é tênue e no sistema legal promotores e juízes parecem não ter qualquer independência.” Democrática na aparência, a mão forte do governo influencia até a cena musical.

O que o Pussy Riot tem para obter apoio internacional?”, pergunta a veterana cantora Valeria. “As maiores estrelas do país tentam não se desentender com o presidente para não pôr em risco sua principal fonte de renda, os shows particulares para os super-ricos, que pagam muito bem”, diz Alissa de Carbonnel direto de Moscou. “Todos sabem que perderiam espaço na televisão estatal se tomassem uma posição contra o Kremlin.

FREE PUSSY RIOT
Enjauladas desde março, Nadezhda, Maria e Yekaterina ganharam visibilidade mundial quando a Anistia Internacional comprou a briga e lançou a campanha FREE PUSSY RIOT. O abaixo-assinado pedindo a libertação do trio incluiu nomes como Bjork, Pete Townshend e Paul McCartney. “Eu e tantos outros que acreditam na liberdade de expressão faremos tudo ao nosso alcance para dar apoio a vocês e à idéia de liberdade artística”, disse o velho Macca.

A cantora canadense Peaches postou um vídeo sugerindo o linchamento de Putin, c/ a participação duma dúzia de amigos, dos Hives ao Cheap Trick, e também organizou um protesto em Berlim que reuniu centenas de pessoas – pouco comparado aos milhares que marcharam pelas ruas de Moscou no dia 12 de junho. “A Rússia será livre!”, gritavam os manifestantes em desafio à política anti-protesto.

É difícil encarar a apresentação da Pussy Riot como arte”, analisa o artista plástico Leonid Sokov, russo radicado nos EUA. “Aquilo foi uma ação primitiva, mas de qualquer forma, elas conseguiram o que todo artista quer e precisa: uma reação ampla e viva da sociedade.

PROTEST AND SURVIVE
Enquadradas por “crime de vandalismo motivado por ódio religioso”, as Pussy Riot foram perdoadas pelo clero ortodoxo, ganharam a empatia do Ocidente e atraíram atenção p/ a liberdade de expressão na Rússia – ou a falta de. A chanceler alemã Angela Merkel considerou o julgamento “excessivamente duro e não compatível com os valores democráticos da União Européia, c/ a qual a Rússia se comprometeu”.

A Grã-Bretanha divulgou em nota que o veredito “questiona o comprometimento da Rússia em proteger os direitos e as liberdades individuais. A Casa Branca disse que “entende que o comportamento do grupo foi ofensivo a alguns, mas nos preocupa a maneira como essas mulheres estão sendo tratadas pelo sistema judical russo.

É possível que a pena seja revista e abrandada p/ 1 ano de prisão – o que ainda soa absurdo se pensarmos que elas deveriam ter respondido por perturbação da ordem pública e punidas com trabalhos comunitários, no máximo. “Este caso se junta a outros de intimidação política e perseguição de ativistas por parte da Federação Russa”, reforça o coro a representante da União Européia, Catherine Ashton.

ANARCHY AND PEACE
Spencer Ackerman, jornalista americano especializado em segurança nacional, lembra do caso dos Crass, punks ingleses que foram presos e julgados durante a guerra das Malvinas por causa do hit que perguntava à primeira-ministra Margareth ThatcherHow Does It Feel (To Be The Mother of a Thousand Dead?)’. A diferença é que os Crass foram inocentados e escaparam das garras das autoridades. As 3 do Pussy Riot, não.

O punk rock, filho ilegítimo, mais sujo, mais esperto e mais irritante do rock’n’roll, normalmente não vence. O movimento tem um longo histórico de aspirações a derrubar governos corruptos e autoritários, multinacionais e outras estruturas de poder internacional – mas não tem um longo histórico de vitórias", diz Ackerman. “Ainda que ninguém fale do grupo pela sua música, uma olhada para a história de êxitos geopolíticos do punk rock mostra que as Pussy Riot já os ultrapassaram, e talvez tenham dado ao punk um futuro como força global para a justiça e a liberdade.

Henry Langston, da revista VICE, esteve c/ outras 4 integrantes do grupo: Garadzha, Kot, Kyurya e Serafima. A revolução já estava no ar. C/ suas balaclavas fluorescentes e postura anti-establishment, as ‘riot grrrls’ russas galvanizaram o zeitgeist.

C/ vocês, a única banda que importa:

VICE - Por que ‘PUSSY RIOT’?

Garadzha - Um órgão sexual feminino que deveria apenas receber de repente começa uma rebelião radical contra a ordem cultural que tenta constantemente defini-lo e mostrar qual é o seu lugar. Os sexistas têm certas ideias de como as mulheres devem se comportar, e Putin também tem alguns pensamentos sobre como os russos devem viver. Lutar contra tudo isso é a Pussy Riot.

Kot - Você não devia ter respondido essa pergunta, Garadzha, porque geralmente não fazemos isso. Quando os policiais e os agentes da FSB nos interrogam e perguntam: ‘O que essas letras em inglês no seu banner significam’ — colocamos um banner durante alguns dos nossos shows ilegais e dificilmente qualquer um desses babacas sabe falar qualquer língua estrangeira — então a gente geralmente responde: ‘Bom, senhor policial, não é nada de especial, essas palavras significam ‘Rebelião das Gatinhas de Estimação’. Na Rússia você nunca deve dizer a verdade para um policial ou agente do regime putinista.

Serafima - Este país precisava de uma banda militante de street punk feminista que pudesse tocar nas ruas e praças de Moscou e mobilizar a energia pública contra os bandidos da junta putinista, enriquecendo a oposição cultural e política com temas que são importantes para nós: gênero e direitos LGBT, problemas da conformidade masculina e a dominância dos machos em todas as áreas do discurso político.

VICE - Quais são suas influências musicais?

Garadzha - Muito do crédito vai para o Bikini Kill e as bandas da cena RIOT GRRRL — de certa maneira nós desenvolvemos o que elas fizeram nos anos 90, embora o contexto seja absolutamente diferente, e com uma postura exageradamente política, o que leva todos os nossos shows a serem ilegais. Nunca fizemos um show num clube ou em qualquer espaço especial para música. Esse é um princípio importante para nós.

Kot - Algumas de nós se inspiram nas bandas clássicas de punk OI! do começo dos anos 80: The Angelic Upstarts, Cockney Rejects, Sham 69 e outras — todas essas bandas tem uma energia musical e social incrível, seu som rompeu a atmosfera de sua década, espalhando confusão por toda parte. A vibração deles realmente capta a essência do punk, que é o protesto agressivo.

VICE - Quais são suas principais influências feministas?

Serafima - Em teoria feminista seriam Simone de Beauvoir com O SEGUNDO SEXO; Dvorkin, Pankhurst com suas corajosas ações sufragistas; Firestone com suas teorias de reprodução loucas; e o pensamento nômade de Braidotti, Millett e Judith Butler.

Garadzha - E como foi dito, em termos de cenas musicais feministas, ativismo e construção de comunidade, nós damos o crédito ao movimento Riot Grrrl.

VICE - Pussy Riot está procurando novos membros?

Garadzha - Sempre! A Pussy Riot precisa continuar se expandindo. Essa é uma das razões porque escolhemos usar sempre balaclavas — novos membros podem se juntar ao grupo e realmente não importa quem vai fazer parte do próximo show — podem ser 3 de nós ou 8, como nosso último show na Praça Vermelha, ou até 15. A Pussy Riot é um corpo pulsante em crescimento.

Tyurya - Você conhece alguém que queira vir para Moscou, tocar em concertos ilegais e nos ajudar a lutar contra Putin e os russos chauvinistas? Ou talvez as pessoas possam começar suas Pussy Riots locais, se acharem que a Rússia é muito distante e muito gelada.

VICE - Melhor eu arranjar uma balaclava neon pra mim também. Vocês se preocupam com a perseguição da polícia ou do Estado conforme vocês ficam mais e mais conhecidas?

Kot - Não temos nada com que nos preocupar, porque se os bandidos repressivos putinistas jogarem uma de nós na cadeia, 5, 10, 15 garotas mais vão colocar balaclavas coloridas e continuar a luta contra seus símbolos de poder.

Serafima - E hoje, com dezenas de milhares de pessoas nos apoiando, o Estado vai pensar duas vezes antes de tentar fabricar um caso criminal para nos tirar de circulação.

VICE - Como vocês vêm a Rússia sob um novo governo liderado por Putin?

Tyurya - Como uma ditadura de Terceiro Mundo com todas as suas características divertidas e cheias de classe: uma horrível economia baseada em recursos naturais, níveis inacreditáveis de corrupção, ausência de tribunais independentes e um sistema político disfuncional. E sob o governo de Putin é bom se preparar para mais uma década de sexismo brutal e conformismo com as políticas oficiais do governo.

Serafima - Como você via a Líbia sob o governo de Gaddafi? Como você vê a Coreia do Norte sob o governo de Kim Jong-Un, o ‘brilhante camarada’ de 28 anos? Para nós, a Rússia sob o governo de Putin, aka ‘O Líder Nacional’, não é diferente.

VICE - O que vocês acham sobre os outros grupos antigovernamentais, como o Voina e o Femen da Ucrânia?

Tyurya - O Voina é legal, acompanhamos eles de perto, gostamos mais do seu período de 2007/08, quando eles fizeram ações simbólicas muito loucas como o ‘Fuck for The Heir Puppy Bear na véspera das eleições presidenciais de 2008. Eles desenharam uma caveira com os ossos cruzados com laser verde no parlamento russo e fizeram um enforcamento cerimonial de homossexuais e imigrantes ilegais como um presente para o prefeito de Moscou, foram coisas poderosas.

Serafima - Nossa opinião sobre o Femen é uma história complicada. Por um lado elas exploram uma retórica muito masculina e sexista em seus protestos — os homens querem ver garotas nuas agressivas sendo atacadas por policiais. Por outro lado, sua energia e capacidade de continuar em frente não importa o que aconteça é incrível e inspiradora: um dia elas estão na Suíça escalando a cerca do Fórum Econômico Mundial e no outro já estão em Moscou atacando o quartel-general da maior produtora de gás natural russa. E mesmo depois de terem sido torturadas e humilhadas pelos agentes da KGB na Bielorrússia, elas prometeram continuar lutando ainda mais. Energia é uma coisa muito importante nos dias de hoje; grupos de rua na Europa e na América frequentemente carecem de força, mas essas garotas realmente têm isso.

VICE - Qual foi o show favorito de vocês?

Garadzha - Fora o da Praça Vermelha, todas nós realmente gostamos do nosso show no telhado de um dos prédios do Centro de Detenção de Moscou, onde as pessoas foram presas depois dos protestos pós-eleição do dia 5 de dezembro. Os presos políticos podiam nos ver de dentro das celas e gritavam e aplaudiam enquanto a gente tocava ‘Death to Prisons - Freedom to Protest’. Os guardas e os funcionários da prisão ficaram correndo de um lado pro outro porque não sabiam como tirar a gente imediatamente daquele telhado. Eles ficaram tão assustados que ordenaram um trancamento total imediato — acho que eles pensaram que ia começar um cerco ao Centro de Detenção depois que a gente terminasse de tocar. Foi muito legal.

VICE - Vocês têm planos de armar shows nas aparições públicas do Putin?

Tyurya - Putin tem muito medo de fazer qualquer aparição realmente pública — todas as suas ‘reuniões públicas’ são fortemente vigiadas, com partidários do Kremlin gritando e mandando beijos. Mas um dia vamos pegá-lo desprevenido, com certeza.

Serafima - Então é melhor ele dar o fora antes da gente conseguir por as mãos nele. Que o Putin nunca queira encontrar a Pussy Riot cara a cara!

LIBERDADE PARA AS BUCETAS
PUSSY RIOT TOCANDO O TERROR
  NADEZHDA, MUSA DO MOVIMENTO
 ANTHONY KIEDS VESTE A CAMISA...
...MADONNA PÕE A BALACLAVA...
...PEACHES PUXA O CORDÃO...
...E O PREFEITO DE REYKJAVIC ADERE
FEMEN DERRUBA CRUZ NA UCRÂNIA
CENA DE PROTESTO EM MOSCOU